Em outubro de 2009, depois de três tentativas frustradas, o
Brasil ganhou o direito de sediar as Olimpíadas de 2016, a ser realizadas no
Rio de Janeiro, a primeira em solos sul-americanos.
A partir de então, tínhamos cerca de 7 anos até a festa de
abertura dos jogos, no histórico Estádio do Maracanã.
Desde a escolha do Rio de Janeiro para sediar os jogos até
hoje (Maio de 2015), tivemos 3 ministros do Esporte: Orlando Silva, Aldo Rebelo
e George Hilton. Todos especialistas na área, certo? Errado. Todos com
experiência prévia na área, então? Também não. Desde 1995, quando foi criado o
Ministério dos Esportes, jamais tivemos um especialista na pasta. Foram 8
ministros até hoje, de agrônomos a médicos e, atualmente, um teólogo. Isso sem
contar o primeiro deles: Pelé. Sim, se você não lembra, “O Rei” foi ministro dos esportes entre 95 e 98. Pausa para reflexão.
Com a escolha do Rio para sediar as Olimpíadas a ideia das
cabeças pensantes no governo federal passou a ser transformar o Brasil em uma
potência olímpica. O tamanho da ambição: Ficar entre os 10 países com mais
medalhas nas olimpíadas de 2016.
Nas Olimpíadas de 2004, na Grécia, o Brasil conseguiu 10
medalhas e ficou em 16º lugar no ranking final. Em 2008, China, ganhamos mais
medalhas (15), mas, ficamos apenas no 23º lugar, pois a maior parte foi de
medalhas de bronze, que valem menos no ranking. A Etiópia, por exemplo, ficou
na nossa frente porque ganhou 1 uma medalha de ouro a mais, embora tenha
ganhado apenas 7 no total. Já em 2012, Grã Bretanha, o Brasil ganhou 17
medalhas, ficando em 22º no ranking dos jogos.
Fui ver o desempenho do décimo colocado nas últimas três
olimpíadas e comparar com o desempenho do Brasil nelas.
Jogos
Olímpicos
|
Medalha
|
Brasil
|
10
Lugar
|
||
Grã
Bretanha
|
França
|
Austrália
|
|||
2004 (Grécia)
|
Ouro
|
5
|
9
|
||
Prata
|
2
|
9
|
|||
Bronze
|
3
|
12
|
|||
Total
|
10
|
30
|
|||
2008 (China)
|
Ouro
|
3
|
7
|
||
Prata
|
4
|
16
|
|||
Bronze
|
8
|
18
|
|||
Total
|
15
|
41
|
|||
2012 (Grã Bretanha)
|
Ouro
|
3
|
7
|
||
Prata
|
5
|
16
|
|||
Bronze
|
9
|
12
|
|||
Total
|
17
|
35
|
|||
Fonte: COI
Ou seja, o pior resultado de um décimo colocado nas ultimas
três olimpíadas foi a Grã Bretanha em 2004, quando teve 9 medalhas de ouro, 9
de prata e 12 de bronze. O melhor resultado do Brasil nesse período foi também
em 2004, quando teve 5 de ouro, 2 de prata e 3 de bronze. Para ficar em 10º em
2016, o Brasil precisaria do melhor resultado da sua história nos jogos olímpicos
.
Tendo como base de comparação as últimas olimpíadas (2012),
precisaríamos de cerca de 30 medalhas (Nosso melhor até hoje foi 17), sendo pelo
menos 7 de ouro, 10 de prata e 13 de bronze, isso seria o mínimo para ter
chance.
A partir daí pode-se imaginar o tamanho do desafio proposto
pelo Plano Brasil Medalhas, criado pelo Ministério do Esporte. Este previa
investimento de 1 bilhão de reais entre 2013 e 2016, sendo a maior parte para
apoio a atletas e parcela menor para centros de treinamento. (Não seria uma inversão
de prioridades?). Pra mim faz mais sentido investir em infraestrutura para
desenvolvimento do esporte e, a partir destas, recrutar jovens e por aí vai.
Mas, eu não tenho credenciais para planejar o esporte no país, como um Orlando
Silva ou um Aldo Rebelo.
Falta de dinheiro não é exatamente o problema principal para
a situação do esporte no Brasil hoje. Entre os anos de 2007 e 2014, o orçamento
do Ministério do Esporte foi de R$932 milhões a R$2,2 bilhões, sendo que o
ápice foi em 2013, quando atingiu R$3,3 bilhões.
José Cruz[1],
referência de jornalismo esportivo, apontou em dezembro de 2013 que naquele ano
o Ministério do Esporte tinha gasto 10% do seu orçamento. Um dos motivos, ele
dizia, é a falta de projetos. Ou seja, o ministério disponibiliza o dinheiro
para universidades, por exemplo, mas, estas não apresentam projetos executivos
e o dinheiro acaba não aplicado.
O contingenciamento é outro motivo, o ministério do
planejamento restringe o uso do orçamento para aumentar o superávit primário. Em
outras palavras, o dinheiro até existe, mas, a parte dele que não é barrada
pelo pessoal da tesoura lá no planejamento acaba não sendo devidamente
aplicada.
Como disse, a falta de dinheiro não seria um grande problema
caso tivéssemos boas ideias e um bom planejamento para o esporte, usando os
jogos olímpicos de 2016 para impulsionar o esporte no país, a longo prazo. Ao
invés disso, parece que estamos mais preocupados em pular vários degraus e, de
uma hora pra outra, virar uma potência olímpica, algo que honestamente não
somos ainda, embora tenhamos potencial incrível.
O esporte proporciona grandes histórias e espetáculos
sensacionais, surpreendentes. Ele tem um componente inexplicável, um fator
imponderável que supera, por vezes, argumentos racionais e previsões técnicas.
Parece que, para atingir ao que almejam o COB e o Ministério do Esporte,
precisaremos mais do que nunca deste componente, como o “fator casa”, ou algo
que o valha.
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